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Esta Mira para os restos de Nós

Posted : 8 years, 7 months ago on 19 March 2009 05:48 (A review of Estamira)

Lixo estetizado e uma fala crítica, contraditória, por vezes confusa, por outras, estonteante de tanta lucidez e coerência. Fala descompromissada com os discursos da moral vigia do pensamento - sem orientação acadêmica, de senso comum, ou da chamada indústria cultural. Em certa altura, no filme Estamira (2004), a senhora Estamira lê pausadamente seu diagnóstico: "portadora de quadro psicótico, com evolução crônica, alucinações auditivas..." O documentário do diretor Marcos Prado, porém, não se apresenta apoiado na simples premissa da psicótica catadora de lixo com vida sofrida, ou na exaltação de um suposto pobrismo, miséria e estética do lixo. Trata-se, citando a abordagem deleuziana de cinema, duma imagem-tempo e som, pensantes de uma irracionalidade repleta de sentido e por que não dizer: repleta de verdade? A verdade para além do discurso racionalista e, talvez, a expressão daquilo que Michel Foucault queria: “fazer falar a loucura, ela mesma”, uma possibilidade aberta pelo cinema-pensamento.

Marcos Prado conheceu Estamira enquanto realizava um ensaio fotográfico no aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, a mulher perguntou ao fotógrafo se ele sabia qual era sua missão, ele respondeu que não, ela então disse: “A sua missão é revelar a minha missão.” Segundo o diretor, esse foi o ponto de partida para o processo de filmagens e montagem que duraria quase cinco anos. No filme, a protagonista é mostrada como conhecedora de sua condição que reconhece sua perturbação, a “feiticeira” do lixão faz distinção entre trabalho e sacrifício, perversidade e ruindade, loucura e perturbação, lixo e descuido. Assim, seu mundo vai sendo apresentado e descortina também um lugar de vista para o mundo, como espelho, esta mira para olhar uma história e a nós mesmos, sem recusar o que é terrível e abjeto daquilo que nos constrói.

A análise de Foucault sobre a história da loucura toca a história do confinamento que não cura, da exclusão, da enjeição daqueles que em diferentes épocas representaram os desviados de uma normalidade social orientada pela moral vigente. Num tempo - o leproso. Noutro - o louco. Ele descreve a Nau dos Loucos na paisagem imaginária da Renascença, ela era fundamental transportando tipos sociais que embarcavam em uma grande viagem simbólica em busca de fortuna e da revelação dos seus destinos e de suas verdades. Os barcos faziam parte do cotidiano dos loucos, que eram banidos das cidades e transportados para territórios distantes. Foucault enxerga nessa circulação dos loucos não apenas uma utilidade social simples, mas a função de segurança dos cidadãos e medida pra que os loucos não ficassem vagando dentro da cidade. Esse desejo de embarcar os loucos em um navio remetia a uma inquietação sobre a loucura no fim da Idade Média. No início do século XV, ela começa a assombrar a imaginação ocidental e passa a exercer atração e fascínio. Então, a quem Foucault faz falar não é propriamente a loucura, mas sua história. Jacques Derrida o criticou por isso, argumentando que fazer falar a loucura só seria possível fazendo silêncio ou se retirando. Mas em destacar essa diferença, não descarto a importância profunda da obra de Foucault ao pensamento crítico dos valores e imagens que motivaram e motivam determinados modos de tratamento do personagem do louco - o Outro da normalidade - em diversas sociedades. E como ouvir o Outro senão o deixando falar por si só?

Mesmo com toda intervenção estética feita por Marcos Prado, desde o início do documentário, quando o lixão é mostrado num preto & branco hiper-granulado em imagem digitalmente envelhecida, depois em cores fortes e vibrantes, o lixo e a miséria estetizados sim e pra introduzir uma anti-musa e aquilo que ela tem a dizer, o Outro fala e não por meio da ilusão cinematográfica em ação. Invocando Gilles Deleuze outra vez, é o filme como órgão aperfeiçoando uma nova realidade, não a realidade de Estamira - nem nova, nem cognoscível - a descoberta é do espectador. A fala é de Estamira, a montagem do diretor, mas a charada é nossa: A loucura está no Outro ou no Mundo? A loucura está em nós? O que há de pungente em Estamira, é a recusa da dignificação da miséria ou de sua naturalização, que só se ausenta no infeliz tratamento, até musicalmente melodramatizado, dado à relação da mulher com a filha mais nova.

Na maior parte do tempo o filme segue o rumo desnaturalizador de facetas da condição humana. O descontrole, a insanidade, a pobreza, a falta - não se mostram sob o mote de causar emoção, ou incômodo por comparações de vidas melhores ou piores. O incomodo se manifesta sim, inclusive em momentos risíveis, porque loucura pode ser engraçada, mas como ponto de partida narrativo ela pode provocar um riso desconfortável, especialmente quando no próprio “discurso da loucura” identificamos clareza sobre algumas de nossas mentiras fundamentais, o que pode ser maravilhoso e intolerável ao mesmo tempo e também lembrar a imagem do profeta, não aquele que tenta nos converter, mas aquele que ainda correndo o risco do ridículo, uma espécie de Zaratustra pós-moderno sem montanha ou caverna, Zaratustra que após se ver demônio no espelho dado a ele por uma criança diz: “O meu impaciente amor transborda em torrentes, precipitando-se desde o oriente até o ocaso. Até minha alma se agita nos vales, abandonando os montes silenciosos e as tempestades da dor.” Estamira diz estar “em todo lugar” e ser “transbordo”, chama sua depressão de profunda e sem fim. Expõe-nos em sua fala que choca e deslumbra. Fica difícil deixar escapar a metáfora - o lixo, os restos, aquilo que rejeitamos e o incompreensível do aterro humano do qual tentamos fugir apoiados na moral e na razão, fica assim visível pela mira da desrazão. Entre cães e abutres - nossos restos.


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